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  • #3049

    Os pedidos recorrentes de remarcação, sobretudo na véspera, podem muitas vezes apontar para resistência, teste de limites, ambivalência em relação ao vínculo ou dificuldade de sustentar a regularidade do trabalho analítico. “Só mandar uma mensagem” também pode indicar uma tentativa de deslocar a sessão para um formato de menor exposição, preservando contato sem entrar no enquadre, o que é clinicamente significativo.
    1.Tais atitudes podem sugerir que a paciente ainda não reconhece o setting como um terceiro elemento estruturante, isto é, algo que não pertence nem só a ela nem só ao analista, mas ao próprio método. Também podem expressar uma forma de colocar à prova se o analista cede, se abandona a posição ou se responde às demandas de modo personalizado, o que pode chegar a transferência.
    2.A sustentação do enquadre tende a funcionar melhor quando é firme, mas não moralizante: o analista pode reafirmar a regra com calma, sem transformar a recusa em punição ou disputa de poder. Em vez de aceitar a mensagem como substituto da sessão, é útil expôr que o modo de contato é um dado clínico e que esse tipo de mudança precisa ser pensado dentro do processo. O tom da fala importa muito.
    3.Uma flexibilização pontual pode ser cuidadosa quando nesses casos, a exceção é tratada como exceção, com enquadramento claro sobre o que mudou e por quê. Isso pode preservar o vínculo em situações agudas sem romper a confiabilidade do processo clínico. A flexibilização passa a comprometer o processo quando deixa de ser exceção e se torna regra implícita, principalmente se a paciente aprende que a sessão pode ser substituída por contato remoto, aviso de última hora ou negociação contínua. Nessa situação, o enquadre perde sua função estruturante e o analista corre o risco de entrar numa posição que enfraquece a possibilidade de interpretar a resistência e a transferência. Quando a exceção passa a organizar o tratamento, ela já está alterando o tratamento.
    Uma intervenção clínica possível seria algo como: “ – Tenho notado que os pedidos de remarcação e a proposta de trocar a sessão por mensagem têm aparecido com mais frequência. Acho importante pensarmos juntos o que está ficando difícil de sustentar aqui.” Essa formulação preserva o setting, não acusa a paciente e transforma a problemática em material analítico.

    #2869

    O sigilo não deve ser considerado absoluto nesse caso, existem relatos de violência já ocorrida e indicação de possível repetição com risco concreto para outra pessoa. Nestas situações a ética profissional exige ponderar o sigilo junto com o dever de proteção, avaliando se existe risco atual, grave e iminente para o companheiro ou para terceiros. O ponto central não é apenas a agressão passada, mas a fala de que “pode acontecer de novo” se ele se sentir provocado, o que sugere risco de recorrência. Isso desloca a situação de um relato apenas retrospectivo para uma questão de segurança e prevenção de novo dano.

    Deve-se primeiro avaliar a gravidade e a iminência do risco, investigando frequência, contexto, acesso à vítima, presença de armas, escalada de violência e fatores de descontrole.
    Fazer manejo clínico imediato, buscando reduzir risco.
    É sempre conveniente consultar a supervisão, serviço jurídico ou instância ética institucional, decisões de quebra ou manutenção parcial do sigilo devem ser muito bem fundamentadas.
    Fazer um registro criterioso de forma objetiva da avaliação clínica, a justificativa da decisão e todas as orientações dadas ao paciente.

    Comunicar ao paciente não será tarefa fácil. Sempre comunicar ao paciente que a proteção de terceiros pode impor limites ao segredo profissional, sendo feito de modo claro, antecipado e não punitivo. A ideia é explicar que o sigilo é uma regra importante, mas que pode ter limites quando há risco relevante de dano a terceiros. Também ajuda dizer que qualquer medida será a mínima necessária e, sempre que possível, construída junto com ele, para preservar a aliança terapêutica.

    #2864

    Quando nos vemos diante de um paciente com uma carga grande de problemas que desalinharam sua vida, acabamos lidando com processos de atendimento que acumulam varia funções. Faço o atendimento de uma paciente de 47 anos que sofre com problemas psicossomáticos, todas as sessões ela me traz algo diferente. Percebo nela uma resistência de chegar no ponto crucial da amenização do emocional dela, fala sem deixar espaço para reflexões. Ela sempre narra algo de terrível que aconteceu na vida dela mas não consegue ainda falar sobre. A função da escuta transcorre sem problemas, o setting perfeito, regras de comunicação em dia, no entanto manter a neutralidade traz, para nós terapeutas uma constante autorreflexão e sensibilidade para não entrar abruptamente no interior do paciente. Manter uma postura neutra enquanto o tempo passa e você sabe que ali pode estar a chave que vai virar a vida do paciente. A neutralidade requer estar atento às dinâmicas emocionais que emergem na relação analítica, é importante permitir esse espaço de confiança e exploração profunda da psique do paciente. Um dos maiores desafios que encontrei nesse atendimento é a neutralidade, um dos pilares que sustentam a eficácia do tratamento psicanalítico. Caso eu agisse diferente a paciente poderia sentir-se violada em seu respeito e a confiança firmada desapareceria e perderíamos todo o progresso adquirido até agora e eu o atendimento. Mas devagar vou chegar lá e fazê-la se livrar deste peso que a incomoda, apesar de estarmos com grandes avanços no tratamento, que continua com os laços de respeito e confiança, regras de comunicação e tempo, transferência e contratransferência sempre respeitados.
    Quanto a analista que vos escreve, sempre faço um preparo antes e depois de cada atendimento para me manter inteira.

    #2471

    Quando estamos iniciando é assim, neh. Queremos logo resultados e pensamos que o atendido já falou tudo, aí ele vem e traz outra questão que muda relevantemente o campo de visão. Na prática vamos entendendo isso, cada sessão é única e cheia de surpresas.

    #2470

    Que bom que você não desistiu. A partir de sua experiência você encontrou uma forma de ajudar aqueles que se encontram na mesma situação que você esteve e com a vantagem que o amadurecimento temporal do ser te ajudou a ser um excelente profissional, que se importa.

    #2466

    Atendo como Terapeuta Comportamental Cognitivo. Em meu primeiro atendimento houve o relato do cliente/paciente que se sentia invisível para outros profissionais e pelas pessoas em seu redor por mais que dissesse o que estava sentindo. Era uma pessoa repleta de sintomas psicossomáticos que não involuiam. Já na primeira escuta o cliente relatou sentir-se escutado e saiu mais leve do que entrou. Foi uma escuta bastante emocionada mas que trouxe alívio interior. Foi quando entendi que estava no caminho certo e que a escuta na psicanálise, sem julgamentos, sem intromissão traz enormes benefícios e é de suma importância. Ouvir é captar o que foi dito; escutar é acolher, interpretar e buscar o que aparece nas entrelinhas do discurso, inclusive afetos, repetições e conteúdos inconscientes. Ouvir não implica melhora do estado emocional. Já escutar exige atenção, presença e abertura para o sentido manifesto e latente da fala dizendo implicitamente: _ você é visível e é importante, mas precisa cuidar de seu processo interno.

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