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    Desafio do Módulo 4 — Construção do Setting Terapêutico

    Situação: Marcos, psicanalista iniciante

    Uma paciente, em atendimento há dois meses, passa a pedir remarcações com frequência, quase sempre na véspera, alegando imprevistos de trabalho. Nas duas últimas vezes, também perguntou se poderia “só mandar uma mensagem” em vez de vir à sessão.

    Sugestões para análise:

    1. O que esses pedidos podem estar comunicando sobre a relação da paciente com o enquadre?
    2. Como Marcos pode sustentar o setting sem se tornar rígido ou punitivo?
    3. Em que ponto uma flexibilização pontual deixa de ser cuidado e passa a comprometer o processo?

    O enquadre é um dos maiores desafios da clínica iniciante. Compartilhe sua leitura aqui no fórum e vamos pensar juntos em como Marcos pode conduzir essa situação.

    #3049

    Os pedidos recorrentes de remarcação, sobretudo na véspera, podem muitas vezes apontar para resistência, teste de limites, ambivalência em relação ao vínculo ou dificuldade de sustentar a regularidade do trabalho analítico. “Só mandar uma mensagem” também pode indicar uma tentativa de deslocar a sessão para um formato de menor exposição, preservando contato sem entrar no enquadre, o que é clinicamente significativo.
    1.Tais atitudes podem sugerir que a paciente ainda não reconhece o setting como um terceiro elemento estruturante, isto é, algo que não pertence nem só a ela nem só ao analista, mas ao próprio método. Também podem expressar uma forma de colocar à prova se o analista cede, se abandona a posição ou se responde às demandas de modo personalizado, o que pode chegar a transferência.
    2.A sustentação do enquadre tende a funcionar melhor quando é firme, mas não moralizante: o analista pode reafirmar a regra com calma, sem transformar a recusa em punição ou disputa de poder. Em vez de aceitar a mensagem como substituto da sessão, é útil expôr que o modo de contato é um dado clínico e que esse tipo de mudança precisa ser pensado dentro do processo. O tom da fala importa muito.
    3.Uma flexibilização pontual pode ser cuidadosa quando nesses casos, a exceção é tratada como exceção, com enquadramento claro sobre o que mudou e por quê. Isso pode preservar o vínculo em situações agudas sem romper a confiabilidade do processo clínico. A flexibilização passa a comprometer o processo quando deixa de ser exceção e se torna regra implícita, principalmente se a paciente aprende que a sessão pode ser substituída por contato remoto, aviso de última hora ou negociação contínua. Nessa situação, o enquadre perde sua função estruturante e o analista corre o risco de entrar numa posição que enfraquece a possibilidade de interpretar a resistência e a transferência. Quando a exceção passa a organizar o tratamento, ela já está alterando o tratamento.
    Uma intervenção clínica possível seria algo como: “ – Tenho notado que os pedidos de remarcação e a proposta de trocar a sessão por mensagem têm aparecido com mais frequência. Acho importante pensarmos juntos o que está ficando difícil de sustentar aqui.” Essa formulação preserva o setting, não acusa a paciente e transforma a problemática em material analítico.

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